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  TEMPERATURA DA ÁGUA  

Alfredo Figueiredo

Um dos vários parâmetros do aquário que necessita de controle regular é a temperatura da água. Como se sabe, é recomendável não haver flutuações de temperatura de grande amplitude já que o mais provável é que afete negativamente não só os peixes mas também os outros seres vivos que nele possam habitar. Uma característica fisiológica dos peixes, que devemos levar sempre em consideração, é que eles não conseguem regular a sua temperatura corporal como as aves e os mamíferos. Este carater é conhecido cientificamente como ectotermia (do grego, ectos, fora, e thermos, calor - aquecem-se com o calor do ambiente).

Os peixes (assim como os anfíbios e os répteis) são vulgarmente chamados "animais de sangue frio". Significa que não conseguem ter aproveitamento do calor produzido pelas atividades metabólicas para regular a temperatura corporal. A temperatura do seu organismo não é independente da exterior, como acontece com as aves e os mamíferos. Os animais ectotérmicos dependem da temperatura externa do ambiente para realizarem suas funções vitais. Quando a água arrefece, diminui o ritmo metabólico dos peixes, com exceção das espécies adaptadas ao frio, como as Trutas e Carpas. Conseqüentemente, o seu apetite também diminui. Justamente por isso, torna-se mais difícil pescar durante o inverno. É, por isso, comum, no Inverno, vermos os peixes de lago quase a flutuar à superfície com grande inatividade, devendo-se esse comportamento à ausência de condições térmicas para que o seu metabolismo se processe normalmente.

O metabolismo implica reações químicas e estas envolvem compostos proteicos chamados enzimas que aceleram essas reações. A atividade destes compostos é influenciada pela temperatura. Todas possuem uma temperatura ótima de atuação (que varia consoante a enzima), ficando inativas a baixas temperaturas, o que explica a inércia dos seres ectotérmicos no Inverno. Outro exemplo é o das rãs (anfíbios), que têm de hibernar nas estações frias pois não há condições ambientais, nomeadamente no que respeita à temperatura, para que levem uma vida normal. A pele do peixe é o órgão que está em contacto direto com a água, sendo através dela que todas as variações ambientais são comunicadas ao sistema nervoso central.

Embora a pele do peixe seja relativamente insensível ao toque, pode detectar pequenas mudanças de temperatura. Dado um gradiente de temperaturas, os peixes conseguem escolher a água à sua temperatura ideal, com uma margem de um grau. Como possuem sangue frio, este é o único meio de regularem a temperatura do corpo, deslocando-se para zonas com a temperatura ideal. A manutenção da temperatura corporal exige disponibilidade energética.

No mundo vivo, a energia é armazenada em moléculas de ATP (adenosina trifosfato), para assegurar a ocorrência de reações químicas que constantemente têm lugar nas células. O ATP é formado maioritariamente em organelas celulares chamadas mitocôndrias, na presença de oxigênio molecular, O2. Assim, é de prever que a chave da independência térmica dos organismos está na quantidade de O2 que conseguem fazer chegar às mitocôndrias. Nos peixes, o O2 passa para o sangue através de evaginações filamentosas da superfície corporal especializadas na sua captura: as brânquias. A sua estrutura varia em complexidade, podendo estar expostas externamente ou, na maioria dos casos, alojadas em cavidades branquiais. O aproveitamento que fazem do O2 da água tem que ser máximo já que o teor máximo deste gás que a água pode conter é muito menor que no ar.

A evolução deu-se no sentido de dispor os capilares sanguíneos dos filamentos branquiais de tal forma a que neles o sangue circulasse no sentido oposto ao da água. Deste modo, garante-se um gradiente de concentração de H entre a água e o sangue que leva à constante passagem dessa substância para o sangue. Entra então nos domínios do sistema circulatório dos peixes, que é fechado, ou seja, o sangue circula sempre dentro de vasos sanguíneos. A sua bomba impulsionadora é um coração com apenas duas cavidades, uma aurícula e um ventrículo, o que faz com que no coração só circule um tipo de sangue: sangue venoso, pobre em oxigênio.

Do coração é impulsionado para as brânquias, onde é oxigenado, e destas para o resto do corpo, onde deixa o O2 e capta o CO2, resíduo do metabolismo celular, sendo posteriormente libertado das brânquias para a água. Em virtude da primitiva estrutura do coração dos peixes, o sangue chega aos tecidos com pouca pressão e velocidade, pelo que a quantidade de O2 que se difunde para os tecidos não é grande. Essa quantidade é usada nos diversos processos metabólicos, não restando O2 para a manutenção da temperatura dos fluídos internos, o que retira independência ao peixe (nas aves e nos mamíferos, a quantidade de O2 que chega às células é suficiente para produzir ATP não apenas para participar no metabolismo, mas também para funcionar como garante de energia para manter constante a temperatura do corpo).

À semelhança do que acontece na Natureza, o aquariofilista tem que assegurar aos peixes que mantém um valor de temperatura dentro dos limites aceitáveis, o que varia com os peixes, em função da região donde são originários. Um aquário comunitário de água doce deverá ter a temperatura de 24ºC, razoavelmente cômoda para a maioria dos peixes tropicais: barbo, betta, colisa, corydora, escalar, kribensis, plati e guppy, entre outros. Um aquário tipo ribeiro da floresta tropical úmida da Amazônia deverá ter a temperatura de 30ºC.

As espécies de Discus deste biótopo precisam da água mais quente que muitos outros peixes de água doce. O aquário tipo poça ácida da floresta tropical úmida da Amazônia, onde não é comum introduzirem-se Discus, exige água à temperatura de 24ºC. Neste tipo de aquários abundam espécies de Apistogramma, como o Apistogramma agassizi, e de Corydoras, como a Corydoras adolfoi. Num aquário tipo Rio Zaire a temperatura de 27ºC é a mais apropriada para a água.

Neste tipo de aquários podem ser introduzidos tetras, peixes-gato e mesmo ciclídeos, como o ciclídeo borboleta, Hemichromis thomasi, o cabeçudo, Steatocranus casuaris, e o ciclídeo duende, Teleogramma brichardi, entre outros. Num aquário tipo lago rochoso da América Central é comum encontrar ciclídeos relativamente grandes, como o ciclídeo limão, Cichlasoma citrinellum, o ciclídeo jaguar, Cichlasoma managuense, e o boca de fogo, Cichlasoma meeki, para os quais a temperatura ideal é 28ºC. O aquário tipo lago rochoso da África Oriental, onde, na maior parte das vezes, há vários ciclídeos provenientes dos lagos Tanganyika, Malawi e Victoria, a água está a 25ºC. Na Natureza as condições da água são variáveis durante o ano, estando a água constantemente sujeita a agentes "modeladores", na sua grande maioria as mudanças atmosféricas. Por isso, não há um valor único de temperatura em que determinada espécie pode viver e reproduzir-se.

É importante referir que a grande maioria dos ciclos de vida dos peixes é marcada por alterações das condições da água, envolvendo muitas vezes a temperatura. A chuva é determinante em muitas zonas, como nos ribeiros da Amazônia, ao fazer baixar a temperatura da água, desencadeando a reprodução de certas espécies de peixes. No aquário esse efeito pode ser recriado pela mudança parcial de água, adicionando água fria. Em espécies de outros biótipos é o estímulo oposto, ou seja, o aumento de temperatura que desencadeia a reprodução.

 

Este é um texto de Alfredo Figueiredo - em Fish Journal 3, Agosto 2001.

 


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