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  REPRODUÇÕES AO NATURAL  

Miguel Figueiredo

A reprodução é uma das grandes motivações da aquariofilia. Permite-nos descobrir comportamentos curiosos, renovar as gerações e aumentar o número de peixes no aquário. Permite-nos também fazer trocas com outros aquariofilistas. Os mais empenhados conseguem até escoar algumas criações para lojas recebendo em troca crédito em produtos e reduzindo o encargo com o hobby. Conforme os nossos objetivos existem dois modos extremos de encararmos a reprodução dos peixes: A reprodução intensiva e a reprodução natural. Na reprodução intensiva, onde o propósito é criar a maior quantidade possível de alevins até ao estado adulto, consegue-se uma maior produtividade e fará mais sentido se for esse o propósito principal. Pelo contrário, na reprodução natural, dependendo das espécies e das condições, talvez apenas entre 5% e 40% dos peixes cheguem a adultos.

Porém, serão certamente os melhores, os mais saudáveis, os mais robustos, os mais ágeis. Os peixes deformados desaparecerão e obtem-se assim uma melhor qualidade. Reproduções naturais têm por vezes lugar em aquários comunitários que dispõem de bastantes plantas e esconderijos. Nestas condições, os alevins de algumas espécies conseguem escapar. Isto acontece frequentemente com vivíparos que já nascem grandes o suficiente pra se defender mas também pode suceder com outros peixes, como barbos, tetras, killies, danios, néons chineses ou mesmo ciclídeos: alguns pais são capazes de proteger as crias até atingirem um tamanho suficiente para fazerem pela vida. Para conseguirmos uma maior taxa de sucesso na reprodução natural, temos que montar aquários apropriados, diferentes do vulgar aquário comunitário.

Alguns criadores profissionais de vivíparos colocam simplesmente uma rede a meio do aquário. Os alevins mantêm-se do outro lado da rede, longe dos pais, demasiado grandes para atravessar a rede. É frequente complementar-se a rede inserindo no aquário musgo de java e riccia: são bons esconderijos para os recém-nascidos. Eu resolvi experimentar a reprodução natural adaptando um aquário palustre que mantenho. O aquário está dividido ao meio: uma metade é zona seca - coberta de plantas palustres, a outra metade, com uns 15cm de profundidade, está dedicada aos peixes.

O que fiz foi simplesmente subir o nível da água, inundando com uns 3cm de altura a zona palustre. As plantas não se importam e cria-se um excelente local para refúgio das crias. Os alevins na natureza procuram precisamente as zonas baixas e cheias de vegetação das margens para se esconderem dos predadores. Neste aquário coloquei vários casais de vivíparos adultos: Limia nigrofasciatus, Girardinus mettalicus e guppies selvagens. Em apenas três semanas fiquei com o aquário repleto de peixinhos, sobretudo Limias cujas fêmeas já tinham a barriga cheia.

Alguns alevins estão já suficientemente grandes e destemidos para nadarem juntamente com os adultos na zona mais funda. Esta experiência relevou-se um sucesso e tem-me feito dar bastante atenção aos métodos de reprodução natural. Um problema com a reprodução natural é que só podemos fazer reproduções naturais com peixes... naturais. Por exemplo, se o tentarmos com guppies artificialmente selecionados as longas caudas irão desaparecer em poucas gerações.

Essas caudas afetam a locomoção dos peixes, tornando-os mais lentos a fugir dos predadores e mais lentos a fecundar as fêmeas. Ao fim de alguns anos teremos guppies de caudas pequenas, parecidos com os selvagens, contudo mais rápidos e mais saudáveis. Uma opção por reproduções naturais acaba por implicar também uma opção por espécies e estirpes não selecionadas. As reproduções naturais, além de conseguirem peixes mais saudáveis, têm, do meu ponto de vista, a ENORME vantagem de darem pouco trabalho. Afinal um hobby é para nos divertimos, não para nos tornarmos escravos dele.

Numa reprodução intensiva há que mudar diariamente a água do aquário dos alevins e alimentá-los várias vezes ao dia com artêmia recém-eclodida. Em algumas espécies é necessário ainda separar os alevins por tamanhos e idades, obrigando a muito trabalho, tempo e à necessidade de vários aquários. Numa reprodução natural não é preciso haver uma frequência tão elevada na alimentação - os peixinhos petiscam os restos dos adultos e os infusórios presentes na água - o fato de não se poderem arriscar a ir para os locais onde nadam os adultos ajuda a manter um fluxo mínimo de infusórios.

Ainda assim, se quisermos que cresçam depressa, teremos colocar artémia recém-eclodida e alimentos para crias nas áreas povoadas por alevins. A frequência da alimentação pode, porém, ser menor sem risco de passarem fome. Os alevins em reprodução natural poderão crescer mais lentamente mas irão crescer sempre. A água, num aquário de reprodução natural, pode ser mudada apenas uma vez por semana.

Em conclusão, a manutenção em aquários de reprodução natural é muito menos trabalhosa e, embora a produtividade seja menor, a qualidade ao longo das gerações será muito superior à dos peixes criados em regimes intensivos.

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Este é um texto de Miguel Figueiredo - em Fish Journal Nº5 2ª série, Outubro 2001

 

 


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