Miguel Angelo Pandini
É do conhecimento de todos
nós que todos os seres vivos são formados
por grandes conjuntos de minúsculas unidades
vitais denominadas células. Existem, é
claro, grandes diferenças entre animais e vegetais.
Porém, são muitas as características
comuns a animais e vegetais a nível celular,
dentre elas o fato de ambos possuírem um citoplasma
(material intracelular) envolvido por uma membrana
permeável pela qual são feitas as trocas
de oxigênio, gás carbônico, nutrientes
e dejetos, com o sangue, no caso dos animais, e com
a seiva, nos vegetais. Essas trocas ocorrem pela permeabilidade
da membrana celular orientada por um fenômeno
conhecido como osmose: a diferença de pressão
osmótica, causada pela diferença de
concentração entre as soluções
do lado de dentro e do lado de fora da membrana, é
portanto, de vital importância no metabolismo
dos seres vivos.
O pH e o grau de dureza da água
interferem na pressão osmótica, influenciando,
assim, no desenvolvimento dos seres aquáticos.
Isso explica em parte o fato de um mesmo peixe ou
planta aquática muitas vezes se desenvolver
bem no aquário do amigo e não no nosso.
Seres aquáticos sofrem muito mais influência
direta das características químicas
da água em que vivem do que os seus similares
terrestres, pelos motivos que acabamos de citar. E
as plantas aquáticas, a médio e longo
prazo, sentem mais os seus efeitos que os peixes.
Assim, devemos dar especial importância
aos métodos de tratamento da água de
nossos aquários, sem falar na opção
de qual água utilizar neles. Se você
reside no interior desse nosso imenso país
terá, talvez, a facilidade de obter água
natural de nascente, por exemplo, ou de riachos não
poluídos para usar em seus aquários.
Mas, a grande maioria dos aquaristas, nas cidades
grandes, terá que se contentar em utilizar
a única disponível: a água de
torneira, que vem carregada de diversos elementos
que a tornam, em algumas cidades, bastante alcalina
(pH acima de 8.0), ligeiramente dura, e com o cloro
como anti-séptico.
O primeiro passo será a eliminação
do cloro que, além de ser nocivo aos peixes,
ataca também as bactérias que atuam
no ciclo do nitrogênio. Para isto existem produtos
específicos denominados "anti-cloro"
à venda nas lojas especializadas. Eu, particularmente,
aconselho que a adição desse produto
seja feita longe dos peixes, ou seja, fora do aquário:
aplique o anti-cloro na água a ser colocada
como reposição que esteja ainda em vasilhame
separado, de preferência graduado, para melhor
dosagem. Espere o tempo indicado e só depois
disso introduza a sua água "tratada"
no viveiro: alguns desses aditivos podem envenenar
seus peixes durante as reações químicas
de eliminação do cloro.
A seguir, faça a correção
do pH conforme necessário: a menos que você
tenha ou deseja ter um aquário de ciclídeos
africanos, terá que usar um acidificante para
corrigi-lo. Produtos para esse fim também são
fáceis de encontrar nas lojas. Existem, porém,
alternativas para acidificação gradual
ou de aquários de grande porte, que economizam
alguns "trocados": uma delas é o
uso das folhas de tamarindeiro, secas ao sol e colocadas
dentro de um saquinho de "molho" no filtro
externo, pelo número de dias necessários
para se chegar aos valores desejados. A presença
de troncos e xaxins na decoração do
aquário também conduzem à acidificação
gradativa; porém, devem ser tomados alguns
cuidados com o acúmulo de fenóis, para
que isto não cause danos ao equilíbrio
biológico.
Paralelamente ao pH, devemos estar
atentos para o grau de dureza da água (dH),
em especial à chamada "dureza de carbonatos"
(KH), gerada pela presença de objetos contendo
carbonatos e bicarbonatos (conchas, mármore,
dolomita, entre outros). Em aquários de água
doce, os testes de dureza de carbonatos deverão
acusar sempre valores entre 3º dH e 10º
dH (escala alemã). Geralmente este tipo de
teste específico tem sido deixado de lado,
pois os valores de dureza estão sempre estreitamente
ligados aos do pH: como os carbonatos são alcalinizantes,
águas ligeiramente alcalinas também
são ligeiramente "duras"; do contrário,
quanto mais baixo o pH (ligeiramente ácida),
menos carbonatos teremos e a água será
mais "mole" ou "macia". Os carbonatos
tem um papel importante no aquário, pois desempenham
a função de "tampão"
químico do pH, evitando uma alteração
demasiado grande e rápida do seu valor (queda
brusca, por exemplo). Há ainda uma grandeza
denominada Dureza Total - GH, que deverá oscilar
entre 6º e 16º dH nos aquários de
água doce, que é determinada pela concentração
de vários sais, especialmente dos sais de cálcio
e de magnésio. Quanto maior essa concentração,
mais "dura" será a água. Está,
também, intimamente ligada ao pH e comporta-se
de maneira semelhante à dureza de carbonatos.
Feita a adequação da
água de nosso viveiro ao biótopo que
desejamos imitar (ligeiramente ácido, neutro
ou alcalino), no caso de aquário novo, devemos
partir imediatamente para a ciclagem biológica,
ou seja, a formação das colônias
de bactérias nitrificantes, observando os índices
de amônia, nitritos e nitratos ao longo do processo.
Isso feito, devemos zelar para que
o equilíbrio biológico não seja
quebrado. Todo aquarista deve analisar periodicamente
a água de seu(s) aquário(s), através
dos kits de testes à venda nas lojas especializadas.
Se os resultados obtidos não forem satisfatórios,
isso é sinal de que algo vai mal e o ecossistema
não está "funcionando" corretamente:
além de peixes apresentando sinais de mal-estar,
suas plantas aquáticas começarão
a definhar, e isto é só o começo
do desastre. Com as plantas morrendo, o ciclo do nitrogênio
será quebrado e haverá concentração
de nitratos a níveis perigosos, coisa que plantas
de plástico não vão mudar em
nada.
Não existe nenhuma fórmula
"mágica" para a obtenção
da água ideal. Cada aquário representa
um biótopo único, com condições,
em particular, muito diferentes. No entanto, existem
alguns cuidados a serem tomados para limitar a contaminação
do viveiro, mantendo a qualidade da água dentro
de limites aceitáveis, para que o aquário
"funcione" bem:
1 - Nunca despreze a mudança
parcial periódica da água: tal como
acontece na natureza, a renovação parcial
da água deve ser feita com frequência;
troque 1/4 a 1/3 da água do aquário
pelo menos de 2 em 2 ou de 3 em 3 semanas, sendo preferível
mudar semanalmente cerca de 10% do volume total. Trate
a água de torneira sempre antes de introduzi-la
no tanque.
2 - Faça a sifonagem do solo
(cama) na mesma operação em que fizer
a troca parcial da água, utilizando um aspirador
próprio para tal: isso reduz bastante a contaminação
de seu viveiro. Faça, também, o corte
de galhos e folhas amarelas ou mortas.
3 - Não confie a limpeza do
seu aquário exclusivamente ao seu filtro biológico:
mantenha também um bom filtro mecânico
funcionando 24 horas por dia, de preferência
externo, trocando o material filtrante sempre que
se fizer necessário.
4 - Não promova uma superpopulação
em seu aquário: quanto menos peixe, melhor!
Use a "regra dos centímetros": um
centímetro de peixe para cada litro d'água,
no máximo.
5 - Não superalimente seus
peixes: depois de algum tempo, principalmente em aquários
antigos, eles perdem a timidez e ficam "pedindo"
comida toda vez que alguém se aproxima. Não
caia na "conversa" deles! Ofereça
uma dieta equilibrada, não só na qualidade,
mas também na quantidade.
6 - Evite o uso de medicamentos na
água de seu(s) aquário(s): peixes doentes
devem ser retirados e tratados em separado. É
bom manter sempre um aquário-hospital, com
a capacidade de 20 a 30 litros, sem plantas ou areia,
equipado com aquecedor e termostato, para efetuar
tal tarefa. A maioria desses remédios é
prejudicial à vegetação do aquário.
O Azul de Metileno, comumente usado para combater
o Íctio, por exemplo, é venenoso para
as plantas aquáticas. Evite também as
chamadas "doses preventivas": não
se justifica medicar quem não está doente.
Faça quarentena regularmente em seus peixes
recém-adquiridos para não ter aborrecimentos
subsequentes. Algicidas podem ser muito bem (e saudavelmente)
substituídos por peixes especialistas em algas,
como os cascudos da família Loricaridae. A
maioria dos caramujos também são inofensivos,
e podem sem retirados manualmente, com um pouquinho
de paciência (característica comum aos
aquaristas!), ao invés de se usar "caramujicidas".
E por fim, não economize nas
plantas! Use e abuse da vegetação aquática:
quanto mais plantas, mais saudável, mais bonito
e mais harmonioso será seu aquário!
Boa sorte!
Este é um texto produzido
por Miguel Angelo Pandini