Miguel Angelo Pandini
Na maioria das vezes, quando começamos
a praticar nosso hobby, adquirimos nosso aquário
com os equipamentos necessários, e nos concentramos
totalmente empolgados em povoá-lo com os peixinhos
de nossa preferência, sem sequer darmos atenção
às plantas de nosso viveiro aquático.
Não quero parecer chato, nem
fazer discurso de professor de Ciências, mas
existem determinados assuntos relacionados à
Biologia que se fazem necessários para que
possamos ter sucesso em aquarismo, dentre eles: fotossíntese,
oxigênio, Dióxido de carbono, ciclo do
nitrogênio, PH e dureza da água, bactérias,
algas, fungos etc., além de lembrar as diferenças
básicas entre as plantas e os animais. Não
nos assustemos com os nomes que podem soar um tanto
estranhos para alguns; falaremos sobre cada um deles
oportunamente, de forma simples e de fácil
compreensão a todos. No momento oportuno, trataremos
desses assuntos com uma abordagem mais avançada.
O mais importante de início
é você ter consciência de que as
plantas aquáticas não são colocadas
em aquário para embelezá-lo, simplesmente:
sua presença é, antes de tudo, indispensável.
Não há vida animal sem os vegetais:
isto tem sido ricamente comprovado pelos ecologistas,
que muitas vezes agem como "chatos de galocha",
mas estão sempre cobertos de razão.
Lembremos que o nosso aquário é um ecossistema
completo e complexo, um pequeno fragmento dos rios
e lagos do mundo inteiro dentro de nossa casa ou ambiente
de trabalho. Portanto, devemos fazer de tudo para
que os nossos queridos "hóspedes",
sejam eles plantas, peixes, crustáceos ou moluscos,
se sintam "em casa" sob nossos cuidados.
É necessário planejar
o aquário antes de qualquer compra, seja de
peixes ou de plantas. As espécies de plantas
aquáticas a serem adquiridas não devem
depender exclusivamente do seu gosto pessoal, mas
de diversos fatores, dentre estes, as dimensões
do seu tanque e os peixes que pretende introduzir.
A altura da cama (substrato) também
é muito importante: deverá ter pelo
menos 6 cm para que as plantas possam enraizar-se.
Das dimensões do tanque, a que mais influi
no desenvolvimento dos vegetais (além do volume
total) é a altura da água acima do substrato:
após longos anos de observação,
percebemos que aquários com 25 cm ou mais de
água produzem melhores jardins subaquáticos.
E não poderíamos deixar
de falar sobre o que há, sem dúvida,
de mais importante no equilíbrio biológico,
não só das plantas, como também
de todo o aquário: a escolha dos peixes - em
qualidade e em quantidade.
Se você é do tipo admirador
de kinguios (peixes japoneses) e carpas multicoloridas,
e adora mantê-los em aquários, esqueça
as plantas: elas não sobreviveriam uma semana
sequer na presença deles. Na verdade, estes
não são peixes para aquário comunitário,
mais indicados para tanques ao ar livre e mini-lagos
em praças públicas e clubes, por causa
da sujeira e desordem que produzem. Além destes
peixes, existem outros que não se dão
bem com aquários fartamente plantados: algumas
espécies de peixes brasileiros, como o pacu,
costumam devorar as partes mais tenras das plantas,
principalmente os brotos. Alguns ciclídeos
(acarás), em especial os do gênero Geophagus,
tem o péssimo hábito de revolver a areia
da cama, cavando enormes buracos ao retirar as pedrinhas
uma a uma com a boca, desenterrando as raízes
das plantas. É preciso obter informações
sobre os hábitos dos peixes antes de introduzi-los.
Dê preferência aos menores - e com bocas
pequenas!
A quantidade ideal de peixes a ser
introduzida no aquário tem sido, há
vários anos, um dilema para qualquer aquarista,
mesmo os que se julgam mais experientes. Não
é raro ver aquários muitos bem montados
e ricamente plantados serem completamente dizimados
em intoxicações por Nitritos, causadas
por excesso de detritos de peixes. Na natureza, dentro
de um rio com água constantemente renovada,
ou num lago com milhões de litros, tudo permanece
em perfeito equilíbrio por séculos e
séculos. Porém no seu tanque de menos
de 100 litros, tenha o cuidado de limitar a quantidade
de peixes ou você terá, em poucos dias,
uma pocilga e não um aquário.
Para resolver este problema, tenho
usado uma regra simples que aprendi há muitos
anos num livro (não me recordo o título)
e que tem funcionado perfeitamente, conhecida como
"Regra dos Centímetros": 1 cm de
peixe para cada litro de água. Complicado?
Não: calcule o tamanho de cada peixe em centímetros,
medindo do focinho ao pedúnculo caudal - o
corpo do peixe, propriamente dito, sem a cauda - e
você terá a quantidade mínima
de água em litros que este peixe precisará
para viver sem causar problemas. Assim, um peixe de
5 cm precisará de pelo menos 5 litros de água
para retirar dela o oxigênio necessário,
e para processar os dejetos por ele produzidos (fezes,
urina, Dióxido de carbono) sem colocar em risco
o equilíbrio biológico do aquário.
Vejamos um exemplo prático
da aplicação desta regra: você
tem um aquário de 50 litros e quer saber quantos
paulistinhas - Brachydanio rerio - poderá colocar
nele: levando em conta que um paulistinha adulto mede
em torno de 3 cm, basta dividir 50 por 3 e teremos
um máximo de 16 peixes.
É bom lembrar que esta regra
dá a quantidade máxima de peixes, ou
seja o limite acima do qual seu aquário poderá
ter problemas. Por isso, o ideal é, ao montar
um aquário novo, introduzir em torno da metade
do número calculado, dando espaço para
poder, no futuro, adquirir aquelas espécies
que achar interessante e que acabaram de chegar à
sua loja favorita - e, mesmo depois disso, evite ficar
próximo do teto máximo: você só
tem a ganhar! Desta forma, haverá muito mais
chances de ter plantas sadias em seu aquário,
sem folhas amarelas e raízes podres, e sem
aquela desagradável surpresa de acordar com
um monte de peixes imóveis boiando de barriga
para cima!
Boa sorte!
Este é um texto produzido
por Miguel Angelo Pandini