Miguel Angelo Pandini
INTRODUÇÃO
Do sonho ao pesadelo, num piscar
de olhos!
Seu aquário vai maravilhosamente
bem: peixes saudáveis, plantas bem desenvolvidas,
algas aparecendo sobre os vidros, pedras e folhas;
seu viveiro parece, enfim, um "sonho"! Aí,
você passa por aquela loja de aquários
conhecida, encontra à venda aquele peixinho
que há muito procurava, e não pensa
duas vezes: leva para casa o bichinho tão cobiçado,
colocando-o em seu aquário bem rapidinho, para
que ele não passe frio, principalmente nesse
nosso inverno, às vezes rigoroso.
Um ou dois dias depois, o desastre:
o novo habitante e a maioria dos seus companheiros
se balançando sem sair do lugar, com as nadadeiras
fechadas, por vezes se esfregando nas plantas e pedras,
e com alguns pontinhos brancos pelo corpo. Alguns,
mais frágeis, começam a morrer em menos
de 24 horas.
Então, é o "Deus
nos acuda", e o sonho vira pesadelo.
O quadro acima não é
incomum, principalmente nesta época do ano,
entre aquatintas iniciantes, e às vezes, também
entre os mais experientes. A doença descrita,
chamada "Ictiofitiríase", "Pontos
Brancos", ou, simplesmente, "Íctio",
é uma das mais comuns e também uma das
mais devastadoras enfrentadas pelos que lidam com
peixes de água doce. É causada por um
protozoário, cujo nome científico já
diz tudo: Ichthyophthirius multifiliis Fouquet (que,
ao "pé-da-letra", em latim significa:
"piolho dos peixes que produz muitos filhotes").
Ao longo desses anos todos, lidando com nossos aquários
e pesquisando muito, acumulei conhecimentos e técnicas
sobre esta terrível doença, que podem
servir de base para o tratamento, e até para
continuar suas pesquisas acerca do assunto.
RAZÕES IMEDIATAS DO
APARECIMENTO DA DOENÇA
Como o agente causador não
se propaga pelo ar, a contaminação de
um aquário sadio se dá pela introdução
de um hospedeiro, que, na maioria dos casos, pode
ser um peixe aparentemente com saúde, pedras
e/ou cascalho, e, é claro, a água, provenientes
de outro aquário, tanque, ou loja de peixes.
Cistos de Íctio já foram encontrados,
também, em plantas aquáticas, alimentos
vivos, e outros animais aquáticos: assim, não
está descartada a hipótese de transmissão
por caramujos, ou vermes colhidos "in natura"
(não-cultivados). Atenção especial
deve-se dar, também, às redes e puçás
de captura, e demais objetos usados em aquariofilia
que entrem em contato com a água e permaneçam
molhados. Assim, como veremos mais adiante, não
falaremos somente em peixes contaminados, mas também
em aquários contaminados.
A temperatura, sendo um dos fatores
de grande importância na vida dos peixes, contribui
decisivamente para o aparecimento e desenvolvimento
do Íctio. Isto explica porque uma epidemia
ocorre sempre que peixes tropicais (infestados) são
mantidos em temperaturas muito baixas ou, em alguns
casos, peixes de água fria (também infestados)
em temperatura mais alta. Pelas mesmas razões,
a maioria das infestações por Íctio
em peixes tropicais parece ocorrer, com mais freqüência,
nas estações mais frias ou quando os
mesmos são manipulados indevidamente, sem considerar
a temperatura.
Mas, o comportamento desse parasita
em aquário nos traz, às vezes, surpresas,
e outros fatores também contribuem para o aparecimento
e complicações da doença. O "modus
operandi" desse terrível protozoário
é fator decisivo. É o que veremos a
seguir.
A "FERA" DISSECADA:
(Ichthyophthirius multifiliis)
O agente causador do Íctio
é um minúsculo animal (?) unicelular
muito primitivo, medindo, quando adulto, entre 200
micra e 800 micra (= milésimos de milímetro)
de comprimento, um protozoário que, em uma
de suas fases, locomove-se na água por meio
de cílios vibráteis, dispostos em fileiras
longitudinais. Ao microscópio, ele aparece
com formato ligeiramente ovalado, tendo um grande
núcleo escuro em forma de ferradura, e com
um movimento giratório característico,
impulsionado pelo conjunto de cílios, o que
não ocorre com o Oodinium limnecticum, muito
semelhante, e causador da "doença do veludo",
outro pesadelo.

Aspecto geral do Ichthyophthirius multifiliis
adulto.
O curioso desse parasita é
que parece existir uma forma ou estado não-patológico:
às vezes, ele desaparece espontaneamente do
aquário, mas reaparece quando um peixe novo
é aí colocado, mesmo que este esteja
sadio. Outra situação curiosa é
o fato de peixes de aquário, que nenhuma doença
apresentam nos meses de verão, venham a se
cobrir inteiramente de protozoários no inverno,
mesmo não tendo sido efetuada a introdução
de qualquer elemento novo. E, mais curioso ainda,
é não se ter registro da captura de
peixes em estado livre, em rios, lagos, etc., que
estivessem doentes, tendo-se verificado a ocorrência
da doença apenas em cativeiro.
Pouco se sabe sobre o assunto, mas,
isso leva muitos especialistas a acreditarem na existência
de uma forma de vida saprofítica, ou seja,
o Íctio comodamente instalado na pele do peixe,
inofensivamente, alimentando-se exclusivamente de
secreções e fragmentos de células
mortas do epitélio do hospedeiro, sem causar-lhe
qualquer dano, aguardando, no entanto, uma oportunidade,
em condições favoráveis (mudança
brusca na temperatura, escassez de oxigênio,
alimentação pobre, dentre outras ainda
desconhecidas) para tornar-se nocivo e lançar-lhe
o ataque mortal, instalando-se mais profundamente
na pele do hospedeiro, passando a alimentar-se também
do seu sangue, causando uma anemia cada vez mais profunda
e, finalmente, a morte; quando ataca as guelras, o
peixe morre mais rapidamente, por asfixia. Já
pude comprovar isso na prática, quando tive
a infelicidade de introduzir, num aquário sadio,
um filhote de cascudo, que havia capturado num riacho,
para usá-lo como "limpa-plantas":
como sua aparência era totalmente sadia, e fazia
muito calor naqueles dias, apliquei-lhe apenas um
banho em solução de permanganato de
potássio antes de colocá-lo com seus
novos companheiros. Dois dias depois, estavam todos
infestados de pontos brancos, inclusive o cascudinho,
que havia sido encontrado com perfeita saúde.
Provavelmente, ele era portador do parasita que, como
saprófita, tornou-se nocivo ao ser submetido
a condições desfavoráveis após
a captura.
Situações semelhantes
ocorrem conosco, seres humanos, em alguns casos como
resfriados e alguns tipos de gripe: mesmo sem ter
contato com outras pessoas, adoecemos quando em condições
desfavoráveis (choques térmicos, desnutrição,
"stress", etc.).
Outra informação importante
é a de que trata-se de doença essencialmente
de peixes de água doce, morrendo o parasita
em água salgada. Existe um "Íctio"
de água salgada, porém, causado por
um outro protozoário, o Cryptokaryon irritans,
que causa problemas de proporções igualmente
desastrosas.
O CICLO DE VIDA DA "FERA"
(na forma patológica, em aquário):
Podemos dividir o ciclo de vida do
Ichthyophthirius multifiliis em quatro fases
bem distintas: incubação, maturação,
reprodução e infestação.
O período de duração deste ciclo
dependerá, principalmente, da temperatura da
água. Poderá ser de pouco menos de duas
semanas, com temperaturas entre 20ºC e 26º,
e aumentará para cerca de oito semanas, em
temperaturas entre 10ºC e 15ºC. Em cada
das fases, o parasita tem tamanho, forma e comportamento
também muito diferentes, como veremos a seguir.

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O Ciclo de vida do Íctio:
1 – Fase de encubação
2 – Fase de maturação
3 – Fase de reprodução
4 – Fase de infestação
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Encubação:
Depois de perfurarem a pele do peixe
hospedeiro, realizando movimentos rotatórios,
os esporos ciliados, medindo entre 30 micra e 50 micra,
se instalam, preferencialmente, no tecido mucoso que
fica entre a derme e epiderme, camadas mais externas
do corpo, próximas às escamas. As células
epiteliais do corpo do hospedeiro, como defesa, produzem
uma camada de tecidos epitelial e conjuntivo subcutâneo,
encistando-os. Quando a penetração ocorre
nas guelras, o ciclo é interrompido pela morte
prematura do hospedeiro em poucas horas por asfixia,
causada pela obstrução das brânquias
devido às lesões causadas pela entrada
dos parasitas. Encistados e protegidos no corpo do
peixe, passam então a alimentar-se de células
epiteliais e de glóbulos vermelhos, entrando
em processo de crescimento e maturação.
Maturação:
Bem alimentados e tendo atingido
seu tamanho máximo, entre 200 micra e 800 micra
(há casos em que chegam a atingir 1 mm!), eles
começam a movimentar-se para abandonar o hospedeiro
a fim de se reproduzirem, o que só ocorre fora
do corpo do peixe. Tais movimentos provocam, no mesmo,
forte reação orgânica com irritação,
inflamação e entumescimento dos tecidos,
formando enormes pústulas. É aqui que
começam a aparecer, a olho nu, os famosos pontos
brancos, que chegam a medir 1 mm de diâmetro,
e que são a reação patológica
da pele e não propriamente os parasitas, como
alguns acreditam. Entre o aparecimento dos pontos
brancos e a saída dos parasitas, haverá
um lapso de tempo que deverá variar de acordo
com a temperatura da água: aos 10ºC este
período será de um mês ou mais,
caindo para 3 a 4 dias, com a água entre 21ºC
e 26,5ºC. Assim, quanto mais alta a temperatura,
mais rápido eles sairão.
Reprodução:
Após romperem as pústulas
e deixarem o hospedeiro, os parasitas adultos procuram
o substrato (cama) do aquário onde tentam se
encistar numa cápsula gelatinosa que eles mesmos
produzem, que os fixam preferencialmente nas plantas
aquáticas e pedras, no interior da qual ocorre
a reprodução frenética, por divisões
celulares repetidas. Sob determinadas condições,
como a de terem sido arrancados prematuramente pelos
"esfregões" do peixe junto a plantas
e pedras, alguns parasitas imaturos tem a capacidade
de formar esporos sem encistar-se. É nesse
ponto que o Íctio expõe o seu "calcanhar-de-Aquiles":
já foi observado que em temperaturas acima
dos 28ºC eles não conseguem se encistar
para a reprodução, e morrem em poucas
horas. Mas, encontrando temperatura ideal, iniciarão
o processo de reprodução, cuja velocidade
também dependerá dela: entre 17ºC
e 20ºC esta fase estará completa dentro
da faixa de 12 a 18 horas. Porém, sob determinadas
condições (e isto já foi observado
na prática), os cistos do fundo poderão
durar mais tempo.
Infestação:
Uma vez completado o processo de
reprodução, cada cisto se rompe liberando
entre 600 e 1.200 esporos ciliados, medindo aproximadamente
30 m cada, que passarão a nadar ativamente
à procura de um hospedeiro para reiniciar o
ciclo. Observados ao microscópio, vê-se
um único vacúolo contrátil (ao
contrário do adulto, que possui vários
deles), um macro-núcleo e um pequeno micro-núcleo
esférico. O micro-núcleo não
aparece na forma adulta, e é proveniente do
macro-núcleo no processo de divisão
celular, no interior do cisto. No adulto, este se
funde finalmente ao macro-núcleo, agora em
forma de ferradura.
O PERIGO DO CÍRCULO
VICIOSO
De um modo geral, cerca de 36 horas
após o protozoário maduro ter abandonado
o hospedeiro, os esporos já estarão
livres, fora dos cistos. Nadando livremente, eles
morrerão, caso não encontrem um hospedeiro
em tempo hábil: na temperatura de 20ºC
eles viverão, em média, entre 33 e 48
horas, havendo, porém, relatos cofiáveis
de se ter encontrado esporos vivos nadando depois
de 55 horas, sob esta mesma temperatura. Dentro de
um ambiente fechado como um tanque de criação
ou aquário, por maior que sejam suas dimensões,
é tempo suficiente para que eles encontrem
um hospedeiro, que poderá ser o mesmo peixe
do qual saiu a "mãe". Assim, sempre
que as condições permitirem, os parasitas
deixarão os peixes para reprodução,
retornando a eles, em número cada vez maior,
até a infestação total, formando
um círculo vicioso macabro. Portanto, aos primeiros
sintomas, o aquarista deverá agir rápido
para evitar o desastre eminente.
O COMPORTAMENTO DO "PACIENTE"
No peixe contaminado, de acordo com
os sintomas e aspecto geral, distinguimos três
estágios da manifestação da doença:
inicial, intermediário, e avançado,
intimamente ligados às fases do ciclo de vida
do parasita.

Estágio inicial:
Para o observador prático,
o início da doença ocorre quando os
primeiros sintomas aparecem no peixe. Tais sintomas
coincidem com a fase de incubação e
início da fase de maturação do
Íctio, mais exatamente quando o parasita, com
seus movimentos, começa a incomodar o hospedeiro.
Neste estágio, o peixe se esfrega contra as
plantas, pedras e cama do aquário, fecha as
nadadeiras dorsal e caudal, permanece apático
no fundo do aquário como se estivesse deitado,
movimenta nervosamente suas nadadeiras, e perde suas
cores mais vivas e o brilho dos olhos. Peixes atacados
nas guelras começarão a morrer já
neste estágio, em poucas horas.
Estágio intermediário:
Alguns dias após o aparecimento
dos primeiros sintomas, quando já se define
a doença, no auge da fase de maturação,
as reações orgânicas do peixe
se manifestam através de pontos brancos com
até 1 mm de diâmetro, no corpo, nadadeiras
e/ou guelras, como se fosse salpicado com "pó-de-arroz".
O quadro geral do peixe piora visivelmente, e os sintomas
verificados no estágio inicial intensificam-se,
além da perda de apetite. Ainda existem boas
chances do peixe sobreviver, se o aquarista tiver
consciência de que deve agir rápido.
Estágio avançado:
O início deste estágio
corresponde à transição entre
as fases de maturação e de reprodução,
quando os parasitas adultos abandonam o corpo do peixe.
Neste estágio, além dos problemas deixados
pelo ataque dos protozoários em si, como anemia
profunda e fraqueza geral, o peixe enfrenta o ataque
de bactérias e de fungos concentrados nas feridas
da pele, causadas pela saída dos mesmos. É
a fase aguda da doença: o peixe perde a coordenação
dos movimentos ou nada de forma irregular, cambaleando
ou em círculos, se balançando todo sem
sair do lugar; há um aumento rápido
e exagerado do número de pontos brancos, pelo
retorno dos esporos vindo dos cistos de reprodução,
espalhados pelo aquário; apresenta respiração
ofegante, com movimentos rápidos dos opérculos,
devido à perda de glóbulos vermelhos
que transportam o oxigênio no sangue, e há
um aumento da secreção de muco por todo
o corpo. E, por fim, a morte, penosa e triste, seguida
pela infestação de fungos no cadáver.
OS "PREDILETOS"
O parasita costuma atacar a maioria
dos peixes ornamentais que conhecemos, principalmente
os em estado mais precário, sendo raros os
casos de imunidade ao seu ataque: tive um cascudo,
da família dos loricarídeos, um exemplar
macho da espécie Loricaria filamentosa que
habitou um aquário comunitário durante
anos, que, tendo ocorrido diversas infecções
generalizadas por Íctio envolvendo seus companheiros
em várias ocasiões, jamais apresentou
um único ponto branco sequer, coisa realmente
difícil de explicar!
Porém, na maioria das vezes,
as vítimas sofrem rapidamente os efeitos dessa
"praga": os alevinos, por exemplo, são
muito sensíveis à infecção,
morrendo aos milhares. Outros peixes, frágeis
por natureza, como o néon e demais caracídeos
de águas tropicais também são
vítimas fatais, na maioria dos casos. Há,
no entanto, alguns peixes cuja suscetibilidade "exagerada"
ao Íctio já foi observada por diversos
estudiosos: um grupo, que antigamente era classificado
como "silurídeos" – peixes
de couro – do qual fazem parte os bagres e mandizinhos
da família Pimelodidae, parece ter uma grande
facilidade de contrair a doença, que, no caso
em questão, atinge os estágios mais
graves em pouquíssimo tempo. Portanto, todo
cuidado é pouco, ao lidar com eles.
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O TRATAMENTO
(ou a tentative em fazê-lo)
Um peixe sadio e bem alimentado,
mantido em condições favoráveis,
infestado com poucos parasitas, oferecerá relativa
facilidade no tratamento e cura. Porém, com
um peixe estressado por capturas, manipulações
e transporte inadequados, anêmico e com baixa
resistência orgânica por alimentação
deficiente, iluminação precária
e má qualidade da água do aquário,
com alterações metabólicas devido
a temperatura inadequada ou mudanças bruscas
da mesma, teremos cura e recuperação
difíceis, visto que o peixe reagirá
mal aos tratamentos e não estará em
condições de superar as infecções
das feridas satisfatoriamente.
Assim, os resultados obtidos no tratamento
de diferentes peixes atacados por Íctio poderão
ser também muito diferentes entre si, pelas
razões já citadas.
Antes de qualquer coisa, é
preciso ter em mente que não basta eliminar
os parasitas do aquário: é necessário,
também, evitar as complicações
causadas pela infecção das feridas provocadas
pelo protozoário, e recuperar a saúde
e o estado geral do peixe após livrá-lo
da doença propriamente dita.
MEDIDAS PRELIMINARES
Uma vez diagnosticada a contaminação
pelo Íctio, é preciso verificar se apenas
um ou alguns dos peixes apresentam os sintomas, ou
se a contaminação é geral: isto
nos dará uma base aproximada acerca da quantidade
de parasitas presentes no aquário, e consequentemente,
acerca da gravidade da situação (se
bem que, num aquário onde algum peixe venha
a apresentar os sintomas, fatalmente teremos os seus
companheiros também portadores do protozoário).
Então, é preciso ter em mente que, se
são poucos os peixes afetados, devemos imediatamente
separá-los, retirando-os do aquário
comunitário para o que chamamos de "aquário-hospital",
com dimensões mais usuais de 40 x 25 x 20 cm
(com aproximadamente 18 litros), coberto parcialmente
por uma tampa de vidro e que deverá ser enchido,
de preferência, com a mesma água do de
origem, para evitar choque térmico e/ou de
pH, sendo desprovido de filtragem, plantas, cascalho
ou pedras, e equipado com uma pedra porosa ligada
a um compressor, para fornecimento abundante e ininterrupto
de oxigênio, e o principal: um aquecedor com
potência aproximada de 50W, ligado a um termostato
confiável, que garantirá a temperatura
adequada ao tratamento, sem a qual dificilmente teremos
êxito.
Esta temperatura, dita "ideal",
deverá variar de uma espécie para outra,
pois, como sabemos, cada uma delas tem sua faixa de
tolerância térmica, ditada pela Mãe
Natureza, conforme o habitat de origem. Você
deverá pesquisar, na literatura aquarística,
ou mesmo junto ao lojista que a vendeu, se se tratar
de espécie exótica, pouco conhecida.
No entanto, pela experiência, sabemos que a
grande maioria dos peixes originários de regiões
tropicais e equatoriais (portanto, quase a totalidade
dos "peixes de aquário" conhecidos)
suportam bem temperaturas entre 28ºC e 30ºC,
em cativeiro, por alguns dias.
Caso a infecção seja
generalizada, ou seja, a maioria ou a totalidade dos
peixes do seu aquário ornamental apresente
os sintomas, proceda de forma semelhante: retire todos
os peixes para o aquário-hospital (procedimento
que eu, particularmente, aconselho na maioria dos
casos), tendo o cuidado de não abarrotá-lo
(se preciso for, use mais aquários como o já
descrito), evitando, assim, a adoção
de quimioterapia (cura por meio de produtos químicos)
em seu aquário principal, pelos sérios
prejuízos que poderão ser causados às
plantas aquáticas por alguns medicamentos,
principalmente se você estiver cultivando cabombas,
criptocorines, aponogetons, equinodorus e samambaias-d’água.
ELIMINAÇÃO DO
ÍCTIO NO AQUÁRIO ORNAMENTAL
Bem mais simples que curar os peixes
doentes no aquário-hospital, a terapia do aquário
comunitário requer tão somente um aquecedor
na potência adequada, acoplado a um bom termostato:
deve-se elevar imediatamente a temperatura da água,
se possível gradualmente até acima dos
28ºC, ou, se as espécies que permaneceram
suportarem tais temperaturas, elevá-la aos
30ºC ou acima, mantendo nesse patamar por uma
semana ou mais. Caso todos os peixes tenham sido retirados,
deve-se observar, então, a temperatura máxima
a ser aplicada de acordo com a faixa de tolerância
térmica das suas plantas aquáticas,
a ser determinada de maneira semelhante à dos
peixes, já citada anteriormente. Evitar as
mudanças bruscas na temperatura, pois além
das plantas, não devemos nos esquecer das preciosas
bactérias do ciclo do nitrogênio, bastante
sensíveis.
Alguns autores aconselham manter
o aquário nestas condições em
torno de três dias, pois, neste prazo, os esporos
resultantes da ruptura dos cistos já teriam
morrido por não encontrar um hospedeiro. Porém,
como diz o dito popular "seguro morreu de velho",
não arrisque nada antes de, pelo menos, uns
dez dias, ou, mais precisamente, antes do tempo que
durar o tratamento dos peixes no aquário-hospital.
Como vimos na matéria da edição
passada, o ciclo de vida do Íctio às
vezes é meio incerto, e pode trazer surpresas
desagradáveis.
Nesse meio-tempo, não introduza
peixes novos em seu aquário comunitário:
faça realmente um isolamento total. E aproveite
esses dias para uma boa "arrumada na casa":
faça uma boa limpeza no cascalho da cama, sifonando-o
vigorosamente, retire galhos mortos e folhas amareladas
das plantas, troque o material filtrante do seu filtro
mecânico por um totalmente novo, e por fim proceda
a uma boa troca parcial da água, no limite
máximo, corrigindo o pH, a seguir. Ao final
do tratamento, diminua gradualmente a temperatura
da água, alterando a regulagem do termostato
(aproximadamente 0,5ºC por dia) até chegar
ao patamar térmico de costume. Com o aquário
limpo e equilibrado, os peixes terão mais chances
de se recuperar dos danos causados pela doença,
ao retornarem.
OS PROCEDIMENTOS NO AQUÁRIO
HOSPITAL
O tratamento dos peixes infectados
vem, como já vimos, precedido da elevação
da temperatura ao limite máximo permitido.
Isto porque, com o calor, acelera-se o desenvolvimento
do Íctio e, consequentemente, apressa-se sua
saída do peixe. Assim, toda quimioterapia terá
que vir acompanhada da correspondente "termoterapia".
Tal medida se faz necessária, pois o parasita
é invulnerável a qualquer medicamento
quando está protegido no corpo do hospedeiro
ou dentro do cisto, se reproduzindo.
Devemos atacá-lo, portanto,
quando ele se encontra livre na água, depois
de deixar o corpo do peixe, ou quando abandona o cisto
após a reprodução, onde ele é
mais frágil, o que corresponde às fases
B e D, respectivamente, na figura abaixo:

Durante o tratamento, além
de manter estável a temperatura da água,
devemos tomar alguns cuidados adicionais com nossos
"pacientes":
1-Como não existe (e nem deve
existir) qualquer tipo de filtragem no aquário-hospital,
deve-se sifonar diariamente as fezes e restos de comida
do fundo;
2-Proceder à troca parcial
periódica da água, para manter a sua
qualidade em nível aceitável, principalmente
ao primeiro sinal de mal cheiro;
3-Mesmo não havendo plantas
aquáticas, devemos manter o aquário-hospital
em local iluminado, ou usar uma luminária,
evitando, assim, o aparecimento de algas marrons,
prejudiciais aos peixes;
4-E, por fim, "caprichar"
na alimentação deles, sem, no entanto,
exagerar na dose ou abusar de alimentos muito gordurosos:
o ideal é usar flocos do tipo "básico",
ou artêmia salina congelada, que é rica
em proteínas.
A QUIMIOTERAPIA DO ÍCTIO
São muitos os produtos usados
para combater a infecção, listados nos
muitos livros e revistas espalhados pelo mundo afora.
Algumas dessas substâncias são meramente
profiláticas (preventivas), bactericidas e/ou
fungicidas, agindo mais sobre os ferimentos do que
atacando o Íctio propriamente dito. Outros
são extremamente tóxicos e precisam
ser utilizadas com cuidado: o ideal é testar,
previamente, a tolerância do peixe, antes de
aplicar a dose máxima.
A seguir, apresentamos a lista dos
remédios mais usados, acompanhados de algumas
referências:
AZUL DE METILENO – É
o mais conhecido e mais fácil de encontrar,
e também o que parece dar melhores resultados.
Deve ser ministrado em solução a 1%,
na dose indicada nas bulas que o acompanham (geralmente,
2 gotas para cada 5 litros d’água), que
torna a água ligeiramente azulada. Não
exagerar na dose, pois o produto pode causar lesões
irreversíveis nos órgãos reprodutores
dos peixes, esterilizando-os (cuidado, criadores de
guppies de qualidade). Nunca usá-lo em presença
de plantas aquáticas, pois estas definhariam
até a morte.
CLORETO DE SÓDIO – O
sal de cozinha, na forma de sal grosso (do tipo para
churrasco) também tem sido testado com bons
resultados: como vimos na edição passada,
a água salgada é inimiga natural do
Íctio. Deve ser ministrado em banhos de meia
hora, sendo a solução de 2% ou 3%. O
maior problema é que nem todos os peixes de
água doce resistem a esse tratamento: os pimelodídeos
e loricarídeos (bagres e cascudos, respectivamente)
não suportam qualquer quantidade de sal na
água e podem morrer. Já os poecilídeos
(guppy, espada, platy e molinésia) parecem
aceitar melhor os "banhos de mar". Mas,
não se deve exagerar no sal, pois, levando
em conta o fenômeno da osmose, poderíamos
causar-lhes desidratação: o ideal seria
aplicar somente um banho desses por dia.
TRIPAFLAVINA – Produto não
muito comum, mas que também tem a reputação
de dar bons resultados. Aplicar banhos na dose indicada
na bula.
HIDROCLORETO DE QUININO – Tem
a fama de não matar as bactérias do
ciclo do nitrogênio, se aplicado no aquário
ornamental. Porém, deve ser ministrado sob
a forma de banhos em aquário separado, em solução
de 12,5 ml para cada 5 litros, trocando-se a água
a cada 2 ou 3 dias.
SULFATO DE COBRE – Deve ser
ministrado com cuidado, com solução
entre 0,8 e 1 ml por litro, até a cura, trocando-se
¾ da água ao final do tratamento. Seu
uso é, no entanto, controvertido: alguns autores
o acusam de causar danos irreversíveis aos
peixes, ao passo que outros o usam largamente, inclusive
no combate a fungos, com excelentes resultados.
TERRAMICINA – Age mais como
bactericida, no combate à infecção
dos ferimentos. Recomenda-se o uso de 50 mg para cada
2 litros de água, junto com a aplicação
do Azul de Metileno, já mencionado. Em doses
elevadas, pode causar esterilidade nos peixes.
AUREOMICINA – Usada geralmente
após o banho em água salgada. A dosagem
indicada consiste em 10 mg por litro d’água.
ATEBRINA – Produto tóxico,
que deve ser manuseado com cuidado. Usa-se 1 ml por
litro de água, que deve ser totalmente trocada
após o fim do tratamento. Tem a péssima
reputação de afetar a fertilidade dos
peixes tratados.
OUTROS PRODUTOS – Verde de
Malaquita, Acriflavina, Formol e Permanganato de Potássio
também são citados por autores respeitados,
como auxiliares no combate ao Íctio.
A "TERMOTERAPIA"
EXCLUSIVA
Nem só com remédios
tradicionais, porém, se tem combatido o causador
do Íctio: muitos aquaristas experientes tem
usado o calor como terapia exclusiva no combate à
doença, quando os peixes infectados se encontravam
em bom estado geral, submetendo o aquário ornamental
(com peixes, plantas e tudo o mais a que tem direito)
a uma elevação da temperatura da água
a 28~29ºC, por um período de 12 a 15 dias,
o que tem dado excelentes resultados, com um índice
de cura em torno dos 80%. Eu, particularmente, já
tive a oportunidade de proceder dessa forma por duas
vezes nesse ano em curso, e consegui salvar todos
os meus peixes infectados.
A RECUPERAÇÃO
DO PEIXE PÓS-ÍCTIO
As feridas deixadas pelo Íctio
após abandonar o corpo do hospedeiro são
portas abertas para a penetração de
bactérias e fungos que, não raro, são
mais fatais que a doença em si, principalmente
quando a saúde do peixe estiver abalada. O
uso de substâncias bactericidas e fungicidas,
como algumas das mencionadas no item anterior, tem
grande significação na recuperação
definitiva do peixe e podem ser usadas com mais segurança,
por já terem sido amplamente testadas: muitas
curas obtidas ocorreram, principalmente, neste ponto
do tratamento. Além disso, a água com
pH e dH adequados, boa oxigenação, iluminação
suficiente, alimentação farta e balanceada,
e temperatura ideal e estável, são pontos
importantes para garantir e restabelecer a saúde
do peixe, quando em tratamento..
PREVENINDO PARA NÃO
REMEDIAR
Como em todos os casos, é
muito melhor evitar uma doença grave, que tentar
a sua cura, algumas vezes penosa e inútil.
Por isso, não faltam bons conselhos para se
evitar o aparecimento do Íctio em aquário:
- Evite introduzir peixes novos em
seu aquário nos meses mais frios do ano;
- Se tiver que fazer isso, porém,
todos os peixes, adquiridos ou coletados diretamente
em rios ou córregos (principalmente estes),
deverão ser mantidos em quarentena, num aquário
de isolamento, previamente, por períodos que
variam conforme a natureza da espécie: os de
água fria devem ficar entre 1 e 2 meses, e
os tropicais, entre 15 dias e 1 mês. Somente
após esse isolamento, não tendo apresentado
qualquer anormalidade, devem então adentrar
o aquário comunitário: isto vale também
para outras enfermidades.
- Ao comprar seus peixes na loja
(conhecida, de preferência), evite aqueles com
as nadadeiras dorsal e caudal fechadas, com a coloração
esmaecida, nadando irregularmente, e que insistem
em se isolar dos demais, algumas vezes próximos
do fundo. Peça ao lojista para colocar um pouco
de ração no aquário onde estão
estocados: peixes normais geralmente tem apetite sempre
aguçado, e "avançam" sobre
a comida com as nadadeiras bem abertas e com movimentos
de quem está bem "aceso". E mais:
verifique se não há peixes mortos.
- Nunca deixe de desinfetar as plantas
aquáticas récem-adquiridas antes de
introduzi-las no tanque definitivo: banhos rápidos
em solução de Permanganato de Potássio
ou Cloreto de Sódio não devem ser ignorados.
Cascalho adicional, e novos troncos e pedras devem
ser fervidos previamente.
- Se você possui muitos aquários,
adquira redes e puçás para uso individual:
não misture equipamentos que entram constantemente
em contato com a água, de um tanque para outro,
e desinfete-os sempre que puder.
- Alimente bem seus peixes e procure
variar sempre a dieta. Porém, o uso de alimentos
vivos pode trazer complicações, principalmente
os de procedência incerta: já foram encontrados
cistos, não só de Íctio, como
também de outras doenças, em muitos
deles. Tubifex, "blood worms", e artêmia
salina, por exemplo, podem ser encontrados em formas
mais saudáveis, desidratados ou congelados.
- E, por fim, ao equipar seu aquário,
não se esqueça do sistema de aquecimento:
tão importante quanto os filtros e luminárias,
os aquecedores jamais deveriam ser esquecidos ou relegados
a segundo plano. Infelizmente, na maioria dos casos
de aquários montados e mantidos por iniciantes,
vemos a ausência desse importante item, o que
é difícil de explicar, pois trata-se
de equipamento de fácil instalação
e de baixo custo de aquisição, se comparado
ao custo total de um aquário de água
doce. Ao adquiri-lo, dê preferência aos
modelos com o termostato em separado, pois cumprirão
seu papel de forma mais eficiente: instale-os –
termostato e aquecedor – em pontos bem diferentes
e distantes entre si no aquário. O aquecedor
poderá ficar próximo ao ponto de retorno
da água do filtro externo, por exemplo. A temperatura
mínima, regulada no termostato? Eu, particularmente,
uso em torno dos 26ºC, há muitos anos,
sem problemas, em aquário comunitário
de peixes tropicais.
E, no fim desta nossa "maratona",
espero ter colaborado com os companheiros aquaristas,
principalmente os iniciantes, aos quais desejo o maior
sucesso em sua criação! Tenha sempre
em mente que nem tudo se resume em "mar-de-rosas":
a mãe Natureza é, às vezes, arrogante
quando não sabemos lidar com ela, convenientemente.
Até a próxima!
Este é um texto de
Miguel Angelo Pandini, colaborador da "Aquarismo
Doce"