Marina Milos - Bióloga
Quando montamos o aquário, a água mais
comum de ser usada é a de torneira ou em alguns
casos a água mineral. O pH dessa água
pode variar de acordo com a região ou com a
fonte de origem. Porém, quando colocamos essa
água no aquário, sua composição
química pode ser rapidamente alterada pelo
cascalho, pedras ou enfeites que haja dentro desse,
já que esses podem ser lentamente dissolvidos,
liberando substâncias químicas em quantidades
variadas na água. Essas substâncias podem
alterar o pH, a dureza da água ou, em última
instância, causar um efeito tampão, que
tende a deixar o pH "travado" num valor
determinado, de acordo com as substâncias químicas
presentes e suas devidas quantidades.
Assim, é sabido que a dolomita, o cascalho
branco comumente utilizado, tende a alcalinizar a
água. Isso é devido a dissolução
de alguns sais presentes nessas pedras que elevam
o pH e tamponam esse em um valor elevado. Cada vez
que se tenta baixar o pH de um aquário com
dolomita usando algum corretivo acidificante, o pH
é temporariamente alterado, mas em menos de
24 horas retorna a seu valor anterior. Não
só o corretivo foi em vão, como os peixes
sofrem um choque de pH na baixa, e no retorno tão
brusco do pH a seu valor inicial.
Desse exemplo fica a lição de que para
montar um aquário é preciso escolher
as espécies de peixes que vão habitar
o mesmo com antecedência para escolher o cascalho
e outros ornamentos que vão ficar no mesmo
levando em conta as características da água
desejadas. Os peixes são diferentes, têm
origens diferentes, e vivem bem mais tempo e são
mais saudáveis quando colocados em uma água
compatível com aquela de origem da espécie.
Existem no mercado tamponadores (buffers) de excelente
qualidade, que ajudam a levar e manter o pH a valor
determinado, ideal para o conjunto de peixes de um
determinado aquário, mas mesmo esses produtos
têm seus limites, e funcionam melhor quando
o aquário foi previamente planejado.
Na prática, as categorias em que os peixes
são divididos são quanto à temperatura
e quanto ao pH e/ou dureza. Quanto à temperatura,
os peixes podem ser:
Água fria: peixes que vivem
à temperatura ambiente mesmo no inverno. Não
necessitam de aquecimento na água, e esse pode
ser até prejudicial, quando relacionado a reprodução,
já que a maioria desses peixes é sazonal
e o "gatilho" para a reprodução
é justamente a mudança de estação.
Exemplo: kyngyos, carpas e dojó;
Água temperada: algo entre
21º e 27º C. Nessa faixa se encontra a maioria
dos peixes ornamentais comumente encontrados. Exemplos:
espadas, colisas, ciclídeos africanos.
Água tropical: Aí são
encontrados principalmente peixes amazônicos,
que vivem muito bem em temperaturas entre 28º
e 32º C. Exemplos: neon, acará disco,
acará bandeira.
Quanto ao pH (que está intimamente relacionado
com a dureza, no aquário), os peixes podem
ser divididos em:
Água ácida: São
peixes que vivem bem em água com pH ao redor
de 6,0 ou até inferior. Os exemplos mais típicos
dessa categoria são os disco e neons.
Água ligeiramente ácida:
algo entre 6,6 e 6,9. Nessa categoria entram diversos
peixes das bacias brasileiras, como as coridoras,
cascudos, ramirezi, e outros.
Água ligeiramente alcalina: algo
entre 7,1 e 7,2. Nessa categoria se encontram muitos
dos peixes da família dos poecilídeos,
como espadas, platys e lebistes.
Água neutra: na verdade, essa
categoria engloba também os peixes de água
ligeiramente ácida e ligeiramente alcalina,
já que esses podem ser facilmente adaptados
em água neutra. Exemplo: paulistinha.
Água alcalina: Aqui estão,
de novo, peixes mais exigentes, que não vão
se adaptar tão bem se colocados em pH mais
baixos, apresentando diversos sintomas de má
adaptação, como os kyngyos, que apresentam
veios de sangue nas caudas transparentes quando o
pH abaixa muito. As molinésias também
fazem parte dessa categoria, e vivem bem em pHs variando
de 7,2 até pHs marinhos, acima de 8,0! Os ciclídeos
africanos também são peixes de água
alcalina, idealmente ao redor de 7,8. Nos lagos de
origem desses peixes há uma quantidade muito
grande de sais dissolvidos na água, e o pH
é bastante elevado, sendo que o ambiente lembra
mais um ecossitema marinho, do que um lago no centro
da Africa.
Sabendo que precisamos planejar o aquário
baseados nas espécies que vamos querer colocar
no mesmo, vamos escolher os substratos. Como dito
acima, a dolomita funciona alcalinizando a água,
e pode ser usada como substrato em aquários
para peixes alcalinos, como kyngyos, molinésias,
espadas e ciclídeos africanos. Um ponto que
deve ser levado em conta em relação
à dolomita é quanto a sua cor, em geral
branca ou muito clara - como os peixes em geral são
provenientes de rios e lagos com fundo escuro, isso
serve como referência para eles, e o uso da
dolomita sozinha como única cobertura do fundo
pode levar os peixes a ficarem estressados pela luminosidade
refletida pelo substrato. Assim, é recomendável
usar uma parte de cascalho de rio comum na mistura,
ou então enfeites escuros no fundo para quebrar
um pouco esses efeito.
Outro substrato comumente usado no fundo de aquários
de água alcalina são conchas moídas
ou halimeda (o esqueleto calcáreo de uma alga
marinha). Esse tipo de substrato é especialmente
encontrado em aquários de ciclídeos
africanos, aonde é comum encontrar também
peças de coral usadas como enfeite. A aragonita
também seria um substrato dos mais escolhidos
para aquários de ciclídeos africanos,
não fosse seu preço bastante elevado.
Em geral o cascalho de rio, a pedra rolada de rio,
é o substrato usado em aquário para
peixes de água ácida, neutra, ou levemente
alcalina. A maioria desses cascalhos é quimicamente
inerte e acaba não afetando o pH, além
da vantagem de prover aos peixes um fundo escuro,
e um ótimo substrato para as plantas.
Outros tipos de cascalho podem ser testados, sendo
deixados por um período em um pequeno recipiente
com uma água previamente testada, a qual é
retestada após esse período para ver
se houve alteração do pH. Esse método
também pode ser usado com pedras que vão
ser usadas dentro do aquário, ou com algumas
que se desconfia estejam sendo responsáveis
pela alteração do pH da água.
Dentre os enfeites naturais, é sabido que
o tronco de arueira ajuda a amolecer a água
e assim a queda do pH, sendo muito usado em aquários
de peixes amazônicos. Outro condicionador usado
para amolecer a água é a turfa, geralmente
colocada em saquinho dentro do filtro ou em uma passagem
de água.
Das pedras brutas, o ideal é perguntar ao
lojista que as está vendendo se elas causam
alguma alteração no pH, ou então
testá-las como proposto acima.
Um aquário montado a algum tempo, especialmente
se tiver filtro biológico de fundo, tem tendência
a apresentar uma acidificação gradual
da água, que não é causada por
propriedades químicas das coisas usadas dentro
do aquário, mas sim pelo acúmulo de
sujeira em decomposição no fundo do
aquário. Essa acidez não é saudável,
mesmo para peixes de água ácida, pois
indica o decaimento da qualidade da água, que
pode, em grau extremo, ser o agente responsável
pelo aparecimento de doenças. Esse efeito deve
ser controlado pela manutenção frequente
do aquário, sempre usando um sifão para
penetrar no fundo e retirar os acúmulos de
sujeira.
Este é um artigo produzido
por Marina Milos