Vladimir Xavier Simões
INTRODUÇÃO
O seguinte texto descreve o método
da garrafa invertida, que consiste, como o próprio
nome diz, em usar uma garrafa de cabeça para
baixo como recipiente para eclosão de náuplios
de artêmia. Isso traz uma grande vantagem ao
uso de outros recipientes ou mesmo da garrafa em posição
normal: com a garrafa invertida, não se formam
"pontos mortos" na circulação
da água. Isso se verifica sobremaneira importante
para manter não somente todos os cistos em
suspensão, mas o faz de modo a que esses estejam
sempre em contato com uma água ricamente oxigenada,
quase de maneira ideal. Isso aumenta e muito as taxas
de eclosão e sobrevivência dos náuplios.
Além disso, há uma imensa facilidade
em se conseguir e manipular esse material, com custo
praticamente zero.
PARTE 1: MONTANDO O ARTEMILHEIRO
A primeira garrafa que usamos é o "corpo"
principal do artemilheiro. Ele consiste de uma garrafa
descartável de plástico (de refrigerante
2 litros), da qual se corta fora o fundo, o mais próximo
possível dos "pezinhos" da garrafa.
Esse corpo é então
encaixado de ponta cabeça dentro da “base”,
que é uma metade inferior de outra garrafa
cortada (corta-se geralmente na medida da metade da
altura).
Aproveitaremos ainda a parte superior
da garrafa usada como base como "capuz"
ou cobertura à garrafa que é o "corpo"
do artemilheiro, evitando respingos de água
causados pela aeração forte que usaremos.
LEGENDA:
1. capuz / cobertura;
2. corpo principal, onde vão a água,
sal e cistos;
3. base de sustentação ao corpo principal;
4. tampinha do corpo, com a localização
correta da pedra porosa.
Ao encaixar tudo, não esqueça
de verificar antes se a tampinha do "corpo"
está bem fechada!
PARTE 2: COLOCANDO PARA ECLODIR
Primeiramente enche-se o corpo pela
metade com água sem cloro e sem aditivos (anticloro,
“Aquasafe” etc). Um dos melhores meios
de conseguir água apropriada é filtando-a
previamente em carvão ativo para remover o
cloro, mas pode-se usar até mesma água
do aquário, água mineral etc.
Depois, adiciona-se de uma e meia
a duas colheres cheias (nem rasa nem "lotadas")
de sal grosso ou sal marinho. Na falta desses tipos
de sal, pode-se usar sal de mesa, comum; apenas use-o
em menor quantidade, pois é mais puro e concentrado
-- uma colher a uma e meia.
Coloque também uma colher
de chá cheia de bicarbonato de sódio
(NaHCO3), para aumentar o pH: isso aumenta e muito
a taxa de eclosão. Mexe-se bem até dissolver
todo o sal e o bicarbonato, e então se completa
com a mesma água. Apenas agora, então,
adiciona-se os cistos.
Os valores abióticos ideais
são:
-- pH: 8.0 a 9.0
-- salinidade: 5 %
-- temperatura: 25 a 30°C
-- iluminação: 1000 lux
-- aeração: próximo da saturação,
nunca abaixo de 2mg / litro
-- densidade de cistos: não maior que 5g /
litro
A quantidade de cistos a ser usada
depende de alguns fatores:
1) da quantidade de náuplios que será
necessária para alimentar os peixes.
2) da taxa de eclosão dos cistos.
Ao pegar a dose de cistos, cuidado
para não usar colher molhada ou mesmo úmida,
e nem pingar água nos cistos.
Por fim, coloca-se a "cobertura"
(para evitar respingos de água produzidos pelo
borbulhamento da pedra porosa), e instala-se a pedra
porosa, que deve ficar encostada no fundo, tocando
a tampinha. A aeração deve ser forte,
em intensidade tal que faça todo o volume de
água circular, sem "pontos mortos",
mantendo os cistos em suspensão permanente,
mas não a ponto de jogar água fora do
artemilheiro.
É comum parte dos cistos formar
um anel emerso, logo acima do nível da água
-- não se preocupe, isso é normal, faz
parte das perdas da eclosão; se quiser recolhê-los
para tentar eclodir depois, boa sorte -- esses dificilmente
eclodem, e é melhor se livrar deles.
Deve-se proceder uma primeira eclosão,
como ensaio prévio antes que ocorra o nascimento
dos filhotes dos peixes, para ser assim possível
determinar a taxa real de eclosão dos cistos
e calcular o quanto se deve colocar para eclodir --
as primeiras "refeições" são
importantíssimas na sobrevivência de
alevinos. Não importa o que o rótulo,
o produtor ou lojistas digam, é inegável
que a taxa de eclosão diminui com o passar
do tempo, e quanto mais velha a embalagem, os cistos
eclodirão sempre menos. Também há
variações naturais, como safras de vinhos
-- há anos de bons vinhos, outras nem tanto.
Como referência, para um dia
de alimentação de uma ninhada regular
de discos (aproximadamente 50 a 70 filhotes) eu uso
cerca de 1/5 a 1/3 raso de uma colher de chá
(a menor colher que você encontrar em sua casa).
Essa quantidade geralmente me fornece náuplios
para um dia inteiro de alimentação -
4 a 6 refeições.
Por fim, marco em um caderno as quantidades
de cada material, a hora e o dia em que tudo isso
foi feito, para ter controle do tempo demandado para
a eclosão e rendimento de náuplios.
A instalação deve ser
completada ligando-se a aeração e a
iluminação. A aeração
deve ser constante, sem interrupção.
A iluminação deve ser mantida ao menos
nas primeiras duas horas iniciais do processo.
Minha técnica adotada envolve
montar tudo isso de preferência em um cômodo
onde o barulho do compressor não incomode ninguém.
Lá, em um canto qualquer, armo uma "cabaninha"
junto da parede, com placas de madeira e/ou papelão,
e dentro dessa deixo ligada por todo o processo uma
lâmpada incandescente fraca (25 ou 40W). Isso
tanto vai acelerar o processo pela iluminação
em si, como também pela geração
de calor da lâmpada.
Apenas
deixo o aviso de que se deve tomar alguns cuidados
nesse método: o primeiro, de não usar
lâmpadas muito fortes nem aproximá-la
demais do artemilheiro, para não superaquecer
a água -- senão não eclodirá
quase nada ou nada. Segundo, deve-se tomar cuidado
para não deixar a lâmpada muito próxima
de materiais inflamáveis -- por exemplo, a
própria "cabaninha" -- pois seu calor
pode acabar provocando um incêndio em sua residência.
LEGENDA:
Modo que deixo à espera da eclosão
1. “cabaninha” feita de placas de papelão
ou chapas de madeira, encostada ou apoiada numa parede;
2. .compressor de ar,
ligado à pedra porosa;
3. iluminação com luz incandescente
comum, nem muito longe, nem muito próxima do
artemilheiro.
Observação: imagem
meramente ilustrativa, sem proporções
realistas.
A eclosão dos náuplios
nesse processo costuma demorar apenas cerca de 24
horas. Por isso é recomendável montar
tudo logo pela manhã, para coletá-los
na manhã seguinte.
Para verificar se houve eclosão,
é simples: desligue a aeração,
coloque o artemilheiro em um local onde possa ser
observado contra a luz, e deixe-o lá por uns
minutos até assentar tudo o que houver em seu
interior.
Observando contra a luz, deve-se
encontrar "pontinhos" que se movem em pequeníssimos
saltos erráticos -- são os náuplios.
Ou uma "nuvem" rosada / alaranjada "flutuando"
logo acima da tampinha do "corpo".
PARTE 3: COLETANDO E FORNECENDO
AOS PEIXES
Para coletar os náuplios,
o método mais simples que encontrei consiste
em fazer um sifão com uma dessas mangueirinhas
de ar, presas na extremidade de uma haste qualquer
-- palitos de madeira para espetinhos de churrasco
são uma boa opção. Prenda uma
das extremidades da mangueirinha a uma das extremidades
da haste -- eu uso linha de costura.
Os náuplios serão então
sifonados direto para dentro de um coador de café,
desses modelos ditos "permanentes", feitos
em material sintético -- nylon; encontra-se
facilmente em supermercados.
Para sustentar o coador eu costumo
usar o fundo de uma garrafa plástica de refrigerante,
previamente toda furada embaixo; e tudo isso dentro
de uma bacia ou pote que comporte todo o volume de
água do artemilheiro (mais de 2 litros).
Para executar a coleta, espere que
tudo flutue (ovos não eclodidos) ou decante
(cascas de ovos eclodidos). Os náuplios parecem
se concentrar sempre em 3 locais distintos: um pouco
junto da superfície, que é local difícil
de tentar sifonar, pois quase sempre vem mais ovos
que náuplios; portanto, não tente pegar
esses. O segundo lugar onde eles já se encontram
em maior concentração é ao longo
da coluna de água, quase sempre mais concentrados
junto ao lado da garrafa que estiver incidindo mais
luz.
E, por fim, o local onde eles se
encontram em maior concentração, e onde
se deve ir primeiramente com o sifão: na parte
mais funda, onde está tampinha da garrafa invertida,
eles se concentram como que "flutuando"
logo acima do fundo da própria tampinha. Cuidado
para não afundar o sifão e tocar esse
fundo, pois você sugará praticamente
apenas cascas vazias dos ovos, "sujando"
a coleta.
Vale lembrar aqui que a maioria dos
alevinos não distingue bem o que é e
o que não é náuplio, e no "frenesi"
alimentar causado pela presença de centenas
de náuplios, acaba ingerindo cascas ou ovos
não eclodidos, se esses estiverem misturados
aos náuplios; e que esses podem causar obstruções
intestinais até fatais nos alevinos.
Como fazer a coleta dos náuplios:

LEGENDA:
1. Sifão com haste, para maior controle;
2. Coleta, na região de maior concentração
de náuplios, próximo à tampinha
– detalhamento:
___2a. extremidade do
sifão, com amarração de linha;
___2b. náuplios
sendo sugados;
___2c. cascas e ovos
não eclodidos, que ficam bem no fundo da tampinha,
sedimentados;
3. náuplios no sifão, indo para o coador;
4. coador sustentado por base feita de garrafa pet,
todo furado embaixo para escoar a água –
por motivos de espaço, não aparecem
detalhes importantes na ilustração:
a) o coador deve sempre estar em nível mais
baixo que o artemilheiro para o sifão funcionar;
b) o coador / base devem estar dentro de um segundo
recipiente, de volume maior que o contido no artemilheiro,
para coletar a água filtrada no coador.
Tomando os cuidados já citados
acima, pode-se coletar praticamente apenas náuplios
e nada de cascas de ovos e/ou ovos não eclodidos.
Claro que sempre há uma pequena perda, de náuplios
que, em nome de uma coleta "limpa", ficam
misturados a esses detritos. Ser quiser, reencha a
garrafa com a água filtrada pelo coador e re-sifone
novamente, para aproveitar melhor. Eu, particularmente,
nem dou muita bola para essa perda, que é ínfima
-- deve ficar em 1 ou 2% dos náuplios.
Depois de filtrados os náuplios,
coloco o coador sob um fluxo bem fraco de água
doce limpa e sem cloro. Faço isso através
de um outro sifão feito da mesma mangueirinha
de ar, que escoa água de um pote usado apenas
para isso. Deixo assim por uns 3 a 4 minutos, para
eliminar excessos de sal e catabólitos do processo
de eclosão (materiais orgânicos).
Limpos os náuplios, uso seringas
grandes (do tipo descartável) para enfim sugá-los
do coador (ainda escoando a água da limpeza).
Forneço a primeira alimentação,
e reservo o excedente (que é a maior parte).
Se quiser que os náuplios fiquem vivos até
o final do dia dentro da seringa, aconselho que use
água salgada limpa ou água salobra (no
mínimo), e que deixe em local fresco e sem
luz forte -- pode ser dentro da geladeira, mas nunca
abaixo de 4°C.
4. COMENTÁRIOS FINAIS
Recomenda-se fornecer os náuplios
eclodidos em no máximo em 24 horas após
a eclosão. Isso porque eles rapidamente perdem
seu valor nutricional / energético enormemente
(20% ou mais em poucas horas) nesse período
devido às mudas que o náuplio sofre
em seu desenvolvimento. Mas também não
é nada que exija que se jogue fora o que passar
desse "prazo", apenas não é
mais tão nutritivo para filhotes -- para peixes
adultos continua sendo um bom alimento.
E mantenha sempre a aeração,
nunca a desligue, pois isso matará muito (ou
a maioria) dos náuplios. Não tente alimentá-los,
pois nos primeiros 3 a 6 dias os náuplios se
alimentam de reservas vitelínicas -- ou seja,
o que você colocar de alimento não será
consumido por eles, mas fomentará o desenvolvimento
de bactérias e demais potenciais patógenos,
além de decair e gerar catabólitos tóxicos.
Com prática, o processo todo
de montagem de um artemilheiro leva menos de cinco
minutos. E com a mesma prática, a coleta dos
náuplios leva outros cinco minutos. Mesmo sem
prática a coisa é simples e rápida,
e mesmo na pior das hipóteses, não se
leva mais que uns 10 minutos para cada operação.
Já alimentei assim centenas
de peixinhos. E náuplio de artêmia é,
e sempre será, um dos melhores (senão
"o" melhor) alimento para filhotes de peixes
e peixes pequenos.
Este é um artigo produzido
por Vladimir Xavier Simões.