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Miguel
Angelo Pandini
Para
abastecer seus aquários, principalmente nas grandes
cidades, a maior parte dos aquaristas do mundo inteiro
utilizam a única água disponível:
a das torneiras. São poucos os que tem a facilidade
de obter água pura de nascentes ou de mananciais
ainda não poluídos, como os das cidades
do interior. E no Brasil, esta situação
não é diferente.
Mas, afinal, como é essa tal
"água de torneira"? O que acontece
com ela antes de chegar até nós? Que tipo
de aditivos ele recebe no tratamento? Que importância
isso tem para nós, aquaristas?
O tratamento dado à água
que recebemos em nossas residências varia de uma
cidade para outra, quer pelo tamanho da população,
quer pela própria origem da água a ser
tratada. Porém, alguns processos são comuns
a todas as estações de tratamento.
O procedimento que passamos a relatar
é adotado há vários anos com sucesso
em Colatina/ES, em uma de suas estações
de tratamento com capacidade para fornecimento de 11
milhões de litros/dia de água tratada,
administrada pelo SAAE - Serviço Autônomo
de Água e Esgoto. Ressaltamos aqui, que a água
tratada da cidade de Colatina é considerada modelo
no estado do Espírito Santo, e classificada por
órgãos de saúde pública
como uma das melhores do Brasil.
A primeira fase é a chamada
captação, ou seja a obtenção
da água bruta de um manancial (rio, lagoa ou
poço artesiano), retirada em um ponto onde a
contaminação seja a menor possível.
No caso de um rio, capta-se água em ponto anterior
à cidade, por motivos óbvios.
A água chega bombeada à
estação de tratamento através de
uma tubulação metálica de grande
diâmetro, sendo que logo na chegada passa por
um sistema de medição, onde se obtém
dados referentes à vazão em l/seg, e à
turbidez, ou seja, a quantidade de material sólido
em suspensão na água bruta. No "teste
do jarro", como é conhecido, determina-se
a concentração do produto que agirá
como clarificador, no caso, o sulfato de alumínio
- Al2(SO4)3 - cuja solução é adicionada
à água bruta logo após o ponto
de medição, sendo este o local de maior
velocidade e agitação, propiciando melhor
mistura. A concentração em água
bruta considerada normal gira em torno dos 16 mg/l,
sendo que em época de enchentes, quando o aspecto
da água barrenta é o tradicional laranja
avermelhado, chega-se a aplicar severos 60 mg/l! É
importante registrar que o sulfato de alumínio
baixa o pH da água, que na chegada gira em torno
dos 6.9 ~ 7.0, caindo para 6.3 ou até mesmo 6.0,
após a adição do clarificador,
dependendo da concentração usada.
Encontramos, nas lojas de aquários,
produtos derivados do sulfato de alumínio, vendidos
como "clarificadores" ou "cristalizadores",
em concentrações mais baixas que as usadas
nas estações de tratamento, para eliminar
o excesso de sujeira em suspensão na água
do aquário.
Após misturada à água,
a solução de sulfato de alumínio
provoca a formação de pequenos flocos
gelatinosos de alguns milímetros, que são
responsáveis pela retenção dos
sólidos em suspensão. É o processo
conhecido como floculação. A mistura percorre,
então, alguns metros até chegar aos chamados
tanques de decantação, enormes piscinas
ao ar livre, com algumas dezenas de metros de comprimento,
onde a água atravessa de uma ponta à outra
em movimento suave, sem turbulência, bem lentamente
para que os flocos, mais pesados, desçam até
o fundo.
Após a decantação,
a água entra no processo final de clarificação:
a filtração, livrando-se de possíveis
flocos que teriam escapado à decantação,
ou mesmo alguma sujeira não colhida na floculação.
O processo utilizado é o de se fazer passar a
água através de seixos e de uma camada
de areia, que tem de 57cm a 60 cm de espessura, no chamado
filtro "convencional" por gravidade, ou seja,
de cima para baixo, ou ainda, através de uma
camada que, só de areia, tem 2 metros, no "clarificador
de pressão", de baixo para cima. Durante
a filtração, a água já fica
em local coberto, livre do vento, poeira, insetos ou
quaisquer outras formas de contaminação.
Depois disso, a água entra,
então na última fase e, talvez, a mais
importante e que requer maior precisão de todo
o tratamento: o reservatório de contato, um tanque
lacrado, sem comunicação com o ar atmosférico,
acessível somente para manutenção,
em que a água está em constante circulação,
sendo submetida a testes de qualidade de hora em hora,
e onde ela recebe os três aditivos básicos
que influenciarão decisivamente na sua qualidade
final: cloro, flúor e cal hidratada.
O cloro é o primeiro dos três
a ser adicionado. Ao contrário do que muitos
imaginam, não é o mesmo produto usado
nas piscinas, onde o "cloro" é, na
verdade, uma mistura de dois sais em pó: hipoclorito
de cálcio e de sódio. Apesar de terem
a mesma finalidade - bactericida - o produto usado no
tratamento da água potável é o
gás cloro - Cl2 - que é acidificante,
de cor amarela, de odor sufocante e que causa mal-estar
em ambientes fechados, que é injetado e dissolvido
na água tratada por um aparelho denominado clorador,
o qual permite regular a dosagem do gás manualmente.
Essa dosagem é calculada da seguinte forma: sendo
um gás injetado num líquido sob pressão,
o cloro tende a se perder no caminho até o consumidor
final - residência, estabelecimento comercial,
escola, etc. - sendo que a água deverá
chegar até ele com uma concentração
mínima, denominada "residual de cloro".
Semanalmente, são feitos testes desses valores
residuais nas chamadas "pontas de rede", locais
mais distantes abastecidos pela estação
de tratamento, sendo possível assim controlar
a dosagem com precisão razoável. O valor
médio aplicado no tratamento, em condições
ditas "normais", é de 0.6 mg/l, sendo
a variação indicada para água destinada
ao consumo humano, de 0.5 mg/l até 0.9 mg/l.
Vale registrar que o poder bactericida do cloro é
ainda maior em meio ácido, onde se conclui que
é dentro do reservatório de contato que
sua eficácia como anti-séptico é
mais notada. Ele atua, ainda, como oxidante de pequenas
partículas que porventura escapem da filtragem.
A seguir, é adicionado o flúor,
na forma de solução de flúor-silicato
de sódio - Na2SiF6 - tendo como função
principal a de auxiliar no combate à cárie
dentária. É também de natureza
ácida, sendo que sua dosagem varia conforme a
temperatura da água: quanto mais quente, menor
a concentração. Em águas na faixa
situada entre 26.4 ºC a 32.5 ºC - a grande
maioria das cidades brasileiras - são aplicados
0.7 mg/l.
E por fim, a água agora considerada
tecnicamente limpa e asséptica, porém,
extremamente ácida pela adição
dos produtos anteriormente descritos, recebe o último
aditivo, o "leite de cal" - uma solução
de cal hidratada - que tem como principal função
a de elevar o pH ao valor de 8.3, que é chamado
"pH de saturação" ou "pH
final". Isto, porque a tubulação
e as partes metálicas da rede de distribuição
ficam protegidas da corrosão provocada pela água
ácida e pelo efeito oxidante do cloro. Apesar
de serem permitidos valores de pH final entre 6.5 e
9.5, é tecnicamente aconselhável o uso
em torno dos 8.3, para se evitar depósitos de
ferrugem e de outros óxidos prejudiciais à
saúde nas caixas d'água residenciais.
Pronta e acabada, a água é
levada aos reservatórios de distribuição
e encaminhada pela rede ao seu destino final, tornando-se,
então a nossa velha conhecida "água
de torneira".
Observando-se atentamente o processo
de tratamento, concluímos que:
1 - Devemos conhecer com exatidão
o valor do pH da água que recebemos em casa,
antes de qualquer outra coisa: se estamos pretendendo,
por exemplo, uma troca parcial em virtude de uma acidificação
causada por "água velha", com água
ácida na torneira, as coisas poderão ficar
ainda piores. Fique atento!
2 - Ao usar clarificador à base
de sulfato de alumínio na água de seu
aquário, tome cuidado com a queda repentina no
pH: não exagere na dose; caso contrário,
peixes mais sensíveis poderão "sucumbir"!
3 - A quantidade de cloro na água
do reservatório de sua residência é
bem menor do que na da torneira direta da rede. Assim,
é possível livrar do cloro a água
de reposição do aquário sem o uso
de aditivos químicos. Sendo a concentração
residual medida na ponta da rede de distribuição
e não na caixa d'água de sua casa ou no
reservatório de seu condomínio, é
possível que, após 24 ou 48 horas, a água
(retirada do reservatório e não da torneira
direta) armazenada em separado já não
tenha (ou tenha pouquíssimo) cloro em sua composição.
É possível, ainda, dar uma "mãozinha"
à natureza, separando a água de reposição
em um recipiente próprio e deixando-a por algum
tempo (uma noite, por exemplo) sob a ação
de uma pedra porosa ligada a um compressor. É
mais saudável do que ficar abarrotando seu aquário
de aditivos, como os anti-cloro, anti-"isto",
anti-"aquilo", etc.
4 - Sendo a cal, derivado do carbonato
de cálcio, um produto alcalinizante e ao mesmo
tempo "endurecedor" da água, convém,
com um valor muito alto encontrado para o pH, fazer
também um teste de dureza de carbonatos (veja
a matéria "As Plantas Aquáticas e
a Qualidade da Água", nesta edição),
para ter certeza de que ela não vai causar danos
ao equilíbrio biológico de nosso viveiro.
5 - Em localidades onde a água
de torneira chega ácida, devemos ter o cuidado
com a presença em demasia do óxido de
ferro resultante da corrosão da tubulação
metálica que, apesar de não ser muitas
vezes por nós percebida, faz mal à saúde
de peixes mais sensíveis (e de algumas pessoas
também!).
Se você reside em cidade de interior,
ou localidade de pequeno porte onde haja facilidade
de visitar uma estação de tratamento,
não perca esta oportunidade. Faça sua
visita, procure conhecer em detalhes o método
usado, e anote os valores, comparando-os com os apresentados
nesta matéria. Ser curioso é demonstrar
vontade de aprender, é ser inteligente!
(Agradecemos a colaboração
do engenheiro do SAAE de Colatina, Alessander Calazans
Dal'Col, e a atenção do assistente técnico,
Sr. Ulisses Machado, que gentilmente nos acompanhou
na visita à estação de tratamento
e nos forneceu os todos dados acima, sem o que a presente
matéria teria sido inviável).
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Este é um texto de Miguel
Angelo Pandini, colaborador da "Aquarismo Doce"
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